O mais recente exame Vestibular da Fuvest apresentou como tema de redação o que foi, a meu ver, uma de suas melhores proposições dos últimos anos. Pedia aos estudantes que discorressem sobre a importância de se conhecer o passado para um melhor entendimento do presente e sua consequente atuação na vida cotidiana.

Embora alguns afirmem que “quem vive de passado não pode ter futuro”, ou que “quem vive de passado é museu” – embora nós, brasileiros, cuidemos tão mal dessas instituições –, prefiro crer que a compreensão dos legados históricos é essencial para que tenhamos a dimensão de nossos destinos, individuais e coletivos, evitando erros, prevenindo crises e melhorando a qualidade geral de nossas vidas. Os homens primitivos já traziam consigo essa percepção, e as espécies que sobreviveram milênios afora aprenderam com a experiência a criar sociedades funcionais, armazenar mantimentos que garantissem sua sobrevivência em momentos desfavoráveis e evitar casamentos consanguíneos, para citar apenas alguns exemplos. “Quem não aprende com a História está fadado a repeti-la”, alerta um dito popular. Como tragédia ou farsa, segundo outro famoso aforismo.

História e Literatura foram elementos que me fascinaram desde que consigo me lembrar. Ainda mais quando interligados. Quando criança, ganhar um livro, no aniversário ou no Natal, provocava em mim tanta felicidade quanto conseguir um brinquedo cobiçado. Em parte, porque o ambiente familiar promovia um particular interesse por eles. Tive esse contato tanto por essa “osmose” quanto por uma curiosidade pessoal. Contribuíram para isso obras como História do Mundo para crianças, de Monteiro Lobato, que tratava o tema com seu humor característico, ou as famosas enciclopédias, que apoiavam os trabalhos escolares e promoviam a cultura geral décadas atrás, em uma era pré-Google e pré-Wikipedia. Era um tempo em que se fazia a distinção entre História, histórias e estórias, separações conceituais que andam um tanto em desuso.

Minha formação escolar também foi decisiva. Um professor de História, em especial, tratava o ensino sobre a caminhada da humanidade como a narrativa de uma grande aventura – o que é, de fato, se pensarmos bem. Outro mestre, de Literatura, indicava excelentes obras e decompunha em sala de aula, trechos de clássicos universais, crônicas, poemas, contos e até textos obscuros, esquecidos, demonstrando o que fazia deles contribuições tão relevantes para a compreensão da existência e despertando na turma o fascínio pelo trato com as palavras.

Escrever sobre História não pode nem deve ser o enfileiramento de fatos e datas, embora a contextualização seja fundamental e ande um pouco esquecida pelos currículos dos anos recentes.  É preciso mergulhar o leitor nos episódios abordados, provocando nele a emoção da descoberta e fornecendo a ele um vasto espectro de informações, que lhe permitam integrar-se como parte da jornada, tirando dela suas próprias reflexões.

Como jornalista de formação e autor de livros de tema histórico, preocupo-me em tratar os assuntos escolhidos como uma grande reportagem. Como se o episódio abordado fosse algo que tivesse acabado de ocorrer, e me levasse a sair em campo para apurar e posteriormente transmitir, sem ideias pré-concebidas. O repórter é a seu modo o historiador do cotidiano, o que pode fazer dele um profissional bem indicado para esse tipo de tarefa. E já que, em geral, os protagonistas já não estão vivos para dar seu testemunho, todos os recursos são relevantes nessa empreitada: visita aos locais onde os fatos ocorreram, estudo da biografia de cada um dos personagens – “grandes” e “pequenos” –, os cenários em que se deram as situações e a coleta da maior massa de informações possível – cartas, atas de julgamentos, censos, declarações públicas, certidões e até boatos cujo fundamento carece de ser esclarecido devidamente.

“Entrevistar documentos” é essencial e uma das maneiras mais eficazes de se construir a boa narrativa histórica, a meu ver. Assim como entender as personalidades envolvidas, para não se deixar de lado os impulsos pessoais que motivaram decisões capazes de mudar destinos coletivos. A distância no tempo, inclusive, joga como uma vantagem, por permitir, ao menos em tese, uma análise menos tendenciosa e mais abrangente dos fatos.

Outra forma de se buscar inspiração para este tipo de tarefa é estudar aspectos do período em que transcorrem as ações. Ter um panorama bem amplo de como era a época e a vida cotidiana das pessoas e, portanto, dos personagens. Na minha experiência, o leitor gosta desse tipo de descrição, que parece ajudá-lo a se ambientar e se envolver na trama. Quanto à dramaturgia, não raro, ela se encontra no próprio desenrolar do momento histórico abordado. O drama real pode ser tão ou mais instigante, surpreendente e impactante que a ficção.

No dia a dia, considero útil ir reunindo material de pesquisa em pastas e também abrir arquivos para anotações soltas, que podem fazer mais sentido adiante. Faço rascunhos à mão constantemente. Isso pode ocorrer no trânsito, assistindo um programa de TV ou mesmo no meio da noite, ao acordar subitamente com uma inspiração especial. E quando tenho uma idéia que considero boa, redijo e mando uma mensagem a mim mesmo onde estiver, seja por celular ou tablet.

O período de pesquisa consome geralmente um terço do período de produção e ainda prossegue pontualmente ao longo da fase de escrita, quando os “buracos” de apuração se revelam mais claramente e precisam ser preenchidos. Pela natureza dos meus trabalhos – essencialmente livros-reportagem – e dos temas que abordo, preciso constantemente retornar às fontes, rechecar informações e incluir detalhes curiosos que podem adicionar sabor às tramas. Ao perceber que a pesquisa já está suficientemente robusta, passo à organização estrutural, criando uma linha do tempo que guie a sequência dos fatos a serem descritos e definindo o tema de cada capítulo. Daí, é desenvolver a narrativa, casando cada episódio com a proposta geral da obra e estabelecendo arcos (pontos altos) de interesse. A lógica é a de um quebra-cabeças, cujas peças precisam ser bem ajustadas para formar um quadro maior coerente e instigante.

Ao montar a concepção final, busco cada vez mais deixar as conclusões ao leitor, oferecendo a ele uma variedade de subsídios para o entendimento do quadro geral. Tentando evitar sentenças tortuosas, longas, complicadas, assim como afirmações categóricas ou relativizações excessivas. Não ficar em cima do muro, nem impedir espaço para o pensamento de quem lê. Um equilíbrio delicado que talvez nunca venha a ser inteiramente atingido. Mas precisa ser tentado.

Hoje o estudo de História expande-se fora das academias e encontra ângulos inéditos de abordagem, abrindo as mais amplas possibilidades nesse campo. Estudiosos como o britânico Peter Frankopan abandonam o tradicional ponto de vista eurocêntrico ao enfocar momentos áureos da civilização no Oriente, como em seu trabalho recente As rotas da seda (The Silk roads, 2015), em que joga luzes sobre a China, a Índia, o Egito e outros grandes portentos da Antiguidade, tempo em que a Europa engatinhava na organização social. O estudo da vida privada para o entendimento dos fatos políticos e econômicos também se mostrou atraente ao grande público. No Brasil, já entramos na segunda década de produções de sucesso que levam às massas o lado humano e desglamurizado de figuras que costumavam ser retratadas de forma estática e solene nos livros didáticos.

Narrativas que descortinam o painel político, social e de costumes, permitindo compreender melhor uma época, têm grande apelo para mim, como escritor e leitor. Sem que necessariamente envolvam grandes figuras públicas, personagens célebres ou incensados pelo tempo. Como pretendi mostrar, de certa forma, no meu livro 1932 – São Paulo em chamas (2018), o herói brasileiro não é aquele que galga a vida política , detém um império financeiro ou realiza grandes feitos pessoais. Mas aquele que faz a sua parte, supera seus limites, ignora os próprios sofrimentos, doa-se à comunidade. Sem almejar a glória individual.

A meu ver, é igualmente digno de louros e de ter louvada sua bravura quem desperta todas as manhãs e realiza sua missão de trabalho, educa seus filhos, prepara as novas gerações. E, quando o momento engaja-se, contesta, exige, mobiliza-se ou mesmo lidera pelo benefício comum, não almejando outra recompensa posterior que o retorno a um cotidiano simples e pacífico. Até porque é ele, em última análise, quem recebe os efeitos da marcha da História.


Luiz Octávio de Lima é jornalista e escritor, autor de A Guerra do Paraguai (Planeta, 2016), 1932 – São Paulo em chamas (Planeta, 2018), 21 grandes batalhas que mudaram o Brasil (Planeta, 2018) e Pimenta Neves – Uma reportagem (Scortecci, 2013).
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