Como me tornei um Editor – Armando José Maccori

Tenho uma paixão por livros desde tenra idade! Minha mãe conta que sua irmã mais velha trazia para mim, de presente, quase toda semana, um novo livro. Já mais velho e crescido, eu olhava para os livros e me perguntava “como é que eles eram feitos?”; para mim eles eram como obras de arte cada qual com sua individualidade e significado. Havia em cada um deles um universo de informações disponíveis a qualquer instante que desejássemos acessar. Algo maravilhoso! A melhor invenção que o ser humano criara em toda a sua existência.

Para mim estava claro que o porquê dos livros é o objeto que eles transportam: informação. Meu gosto por eles sempre aumentou, ainda mais depois de meu ingresso no ensino superior e da necessidade de acessar cada vez mais informações e delas adquirir conhecimento. No curso que optei por seguir era bastante comum os estudantes desenvolverem a capacidade auto-didática e estudarem por conta própria, sem grande necessidade da intervenção dos professores. Os livros eram, de tal sorte, substitutos dos professores; estavam sempre por perto e precisávamos apenas recorrer a eles quando desejássemos.

Então surgiram outros sentimentos. Eu não só apreciava o conteúdo, mas a forma como ele era veiculado e organizado. Meu senso estético e a capacidade de percepção da beleza nas linhas com que o conteúdo estava disposto nos livros se aguçaram. Meu gosto pelas fontes, por elementos tipográficos, pelos contrastes do design nas páginas de um livro me eram arrebatadores. Meus estudos superiores eram em Matemática, e há relatos de muitas pessoas que dizem que esta ciência não é bem uma ciência, mas uma forma de arte, e que todos os elementos necessários para caracterizá-la como tal estão presentes, sobretudo. Beleza. Sim, há muita beleza, principalmente beleza simbólica, codificada em equações, diagramas, gráficos, representações, etc., nem sequer é necessário entender para apreciar, podemos encarar a coisa como fazemos com os hieróglifos egípcios.

Neste momento, pois, surgiu mais um interesse: a escrita matemática, e como aplicação, responder à questão: “Como os livros de matemática são feitos?”, já que sua elaboração é substantivamente mais complicada e sofisticada que a dos livros literários comuns, visto que nestes últimos não ocorre toda aquela profusão simbólica. Pois bem, eu acabei vindo a conhecer um software, na realidade um “motor tipográfico”, que havia sido criado pelo matemático americano Donald Knuth, da Universidade de Stanford, de nome TeX (do grego, tau-épsilon-chi; leia-se TeC)  com a proposta de ser uma plataforma para se escrever matemática, não só muita matemática, mas beauty mathematics (matemática bonita), já que o próprio Knuth dissera estar profundamente insatisfeito com todos os programas de edição de texto existentes no mercado, os quais, segundo ele, só eram capazes de produzir ugly mathematics (matemática feia).

Eu comecei a aprender a utilizar o TeX e acabei percebendo que tudo o que eu fazia nele, inclusive textos não-matemáticos, ficava exatamente com aquele aspecto que se pode encontrar nos mais belos livros. Mais do que isso, ficava até melhor. Sabe-se hoje que a criação de Donald Knuth acabou se mostrando o melhor algoritmo tipográfico que existe, sendo capaz de produzir material editorado naquilo que se chama state of art (estado de arte). Porém, havia um preço a se pagar: o TeX não é fácil de utilizar, pois funciona como uma linguagem de programação, e acaba sendo bem mais utilizado e conhecido no meio acadêmico, e não ocupa espaço significativo nos ambientes editoriais, ao menos em terras tupiniquins. Observo que, nos dias de hoje, os mais sofisticados livros de matemática são produzidos, sem exceção, em TeX; um bom exemplo são os livros de uma tradicional editora alemã, a Springer Verlag, que possui um catálogo com mais de 350.000 (trezentos e cinquenta mil) títulos, todos, não só os matemáticos, diagramados utilizando o TeX.

Muito bem, a partir deste ponto, tudo o que eu escrevia em frente a um computador passou a valer-se do TeX, e só do TeX. Eu acabei criando um gosto por reeditar materiais antigos e interessantes que encontrava na internet, mas fazia isso apenas para mim, ludicamente, para tê-los renovados e bonitos. Gostava, também, de ajudar colegas e pessoas a adequar seus escritos, vertendo-os para o TeX, de modo que ficassem verdadeiramente lindos, com aquela aparência profissional; há várias dissertações e teses de colegas de faculdade que, na seção de agradecimentos, teceram algumas palavras em meu favor pela ajuda que receberam visando resolver problemas de diagramação e a embelezar seus trabalhos.

Foi então que… espera um pouco… eu estou fazendo tudo isso com tanto prazer e gosto e sem retorno algum!?… Pois é, tudo o que eu fazia, até então, era “de graça”; coloquei entre aspas pois o aprendizado colossal que tive foi o melhor pagamento que obtivera! – Quer saber? Vou tornar isso um negócio! Abrirei uma editora e passo a limpo aquilo que já vinha fazendo nos últimos vinte anos. Assim procedi. Constitui a empresa e fundei a minha Editora, a Editora Cor Books (www.corbooks.com.br) tornando-me, enfim, um Editor. E essa foi a história.