Fascínio. Esta palavra carrega uma infinidade de significados: encantamento, desejo, inquietação, impulso e até mesmo certa necessidade. No âmbito da literatura, é possível citar vários casos formidáveis desse impulso pela escrita de um livro.

Mas de onde vem essa “necessidade”?

Os motivos podem ser vários. Para começar, peguemos o clássico “O Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa. O autor começou a escrevê-lo aos 25 anos de idade, e a obra continuou a ser construída por mais 20 anos de sua vida. Quando finalmente foi postumamente lançado, a obra foi dada como incompleta. Ora, o que motiva um escritor a se render por vinte longos anos a um único tema? Neste caso específico, podemos dizer que se tratou de uma inquietude íntima, além de uma reflexão profunda do autor. Certa feita, Pessoa nos passou uma dica que talvez explique o fascínio dele por esse livro: “Eu escrevo para salvar a alma”.

No entanto, ver um livro lançado, mais do que vê-lo escrito e pronto, também não é fácil de explicar, cada escritor tem a sua forma de lidar com esse processo da escrita em si. João Cabral de Melo Neto, por exemplo, era descrito como um “poeta arquiteto”, dado o cuidado minucioso que tinha com suas obras, trabalhando nos textos por um longo período de tempo (algo que ia de uns poucos dias a meses a fio). O escritor de “Morte e Vida Severina” tinha uma visão poética sobre isso: “Escrever é uma maneira que eu tenho de me completar”.

Óbvio que nem todas as obras literárias são um “Livro do Desassossego”, ou um “Morte e Vida Severina”. Boa parte dos escritores, à luz de um “insight”, escrevem suas histórias muito rapidamente. Estas, por sua vez, podem ser lapidadas nas editoras a gosto de um determinado público-alvo. Nessas ocasiões, o escritor se vê no dilema de monetizar o seu trabalho à frente de qualquer motivação. Porém, nem mesmo isso impede que um autor escreva bem, e que não possa fornecer uma obra-prima.  

Dostoiévski, grande romancista russo, é um bom exemplo disso. Sua escrita, a princípio, era motivado pelo espírito intelectual do seu tempo. Mas, com o passar dos anos, seu dom artístico tornou-se sua forma de sustento. Só que, paralelo a isso, seu talento literário só crescia, junto com um imenso entendimento do drama humano. Ou seja, mesmo que ele escrevesse para sobreviver, e um livro seu que fosse lançado significasse mais a possibilidade de seu sustento, a sua escrita se tornou algo único dentro da literatura universal.

O leitor é outro “personagem” bastante importante neste processo. Alguns autores dizem que o fascínio que gera a vontade (ou a “necessidade”) de escrever um livro esbarra no elemento correspondência, pois é preciso “contaminar” o leitor de alguma forma. Um autor necessita de pessoas que o leiam, ainda que negue isso. Afinal, ele precisa saber se está correto nas suas conclusões ou se há acolhimento para as suas palavras e emoções.

Essa visão é corroborada pelo escritor C. H. Parise, autor de “Memórias de Ninguém”, que já deu a seguinte declaração numa entrevista: “O que considero mais desafiador como escritor, é conseguir que o leitor se embrenhe de tal forma na trama, que, durante a leitura, viva um pouco as emoções do personagem. (…) é fascinante conseguir despertar a atenção do leitor para que ele, de forma saudável, sinta-se envolvido com a estória que você escreveu”.

Conselhos de gente entendida no assunto é o que não faltam. Para os que desejam escrever, e materializar o fascínio da escrita, George R. R. Martin, autor do estrondoso sucesso “As Crônicas de Gelo e Fogo”, dá o seguinte conselho: “Coloque no papel aquilo que você sabe. Ou, mais precisamente: aquilo que você já sentiu ou presenciou”. Interessante e útil esse ponto levantado por Martin, pois ele pode ser confirmado em muitíssimas obras literárias por aí, como “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que presenciou de perto o martírio do retirante nordestino para compor a sua obra máxima, ou “Contos de Kolimá”, monumental livro de mais de 2 mil páginas, no qual o russo Varlam Chalámov relata as quase duas décadas de horrores pelos quais passou nos campos de trabalhos forçados soviéticos. Ou seja, o que está mais perto de nós pode ser melhor trabalhado, pois é mais vivo e passível de credibilidade. O fascínio por escrever um livro deve se confundir com o fascínio pelo tema do livro que se deseja escrever, portanto.

Finalmente, para “complicar”, Fernando Sabino diz: “Por que escrevo? Está além da minha compreensão. Esta pergunta é tão grave como se perguntassem: ‘Por que vive? Por que ama? Por que morre? ’. Talvez eu escreva para atender a essas três presenças que são as únicas que existem na vida de um homem”. Ou seja, uma motivação não identificável (vejam só!) também é possível, mas tampouco é castradora, haja vista a beleza da obra do próprio Sabino.

Deste modo, resta pôr as mãos à máquina e tentar expressar o seu íntimo nas folhas em branco de um caderno, ou em um arquivo aberto no Word. Afinal, nada pode ser mais fascinante, no final das contas, que estar cercado de uma pequena multidão curiosa, e sobre o brilhante balcão de mogno, jazer um elegante exemplar, cujo autor (pasme!) pode ser ninguém menos que você.


Erick Henrique da Silva
Equipe de redação da PoloBlog