Filmes de livros e o advogado do diabo: nem tudo é o que parece ser.

“Quando Kevin Lomax deixa a pequena cidade de Blithesdale para trabalhar no escritório de advocacia John Milton & Associados, acredita ter chegado no topo de sua carreira. Em Nova York, ao lado da mulher Mary Ann, descobre uma vida de prazeres com a qual jamais sonhou. Empolgado com a nova vida, ele não se incomoda quando recebe um dossiê sobre um assassinato, elaborado antes da data do crime. Sem perceber, já estava pagando o mais alto preço por seu novo status: a própria alma.”

Assim começa o livro de Andrew Neiderman que nos levanta uma pergunta importante sobre o bem e o mal: por que o mal é sempre mais tentador e financeiramente proveitoso?

Existe uma expressão consideravelmente antiga, que é “bancar o advogado do diabo”. Isso basicamente quer dizer escolher um lado com poucos argumentos e lutar com ele, ou escolher o que não é tão certo assim por benefício próprio e argumentar a favor. Essa definição com certeza é perfeita para a história do livro que vamos contar, que foi imortalizado no cinema com as incríveis atuações de Keanu Reeves e Al Pacino: O advogado do diabo.

“A pressão muda tudo. Há pessoas que quanto mais pressionadas, mais se concentram. Há outras que se dobram.”

No início da história, Kevin precisa escolher salvar ou não um estuprador e pedófilo. Ele sabia que seu cliente era culpado, mas a visibilidade que ganharia com isso fez com que humilhar uma criança para salvar um criminoso valesse a pena, e esse é o primeiro passo para perder sua alma e sanidade. Ao conhecer John Milton, ele vê em si mesmo e em suas conquistas potenciais jamais antes alcançados. Agora sua esposa, Mary Ann, faz parte da alta sociedade e não mais dos subúrbios de uma cidade pequena. Com uma ação mesquinha e de caráter duvidoso, Kevin mudou sua vida de uma maneira que jamais seria capaz de mudar. Isso nos faz pensar: por que o mal é socialmente compensador?

Em um mundo ideal não existiriam pessoas ricas ou pobres, feias ou belas, superiores ou intelectualmente inferiores. Esse seria o mundo onde todos vivem com o necessário e controlam suas ações para o bem de seu próximo, mas em uma sociedade capitalista e egocêntrica, a noção do outro está longe de existir. Dessa forma, a única maneira de viver com extremo conforto encontrada por algumas pessoas é ir contra seus próprios princípios. Kevin fez algo impensável e conseguiu a vida que sempre sonhou e não conseguiria sendo apenas um homem que age por sua moral, como o cristianismo prega. Mas por que essa beleza em manter a “humildade” enquanto John Milton, que representa o diabo, oferece tanto conforto e certezas na vida física?

O livro e o filme diferem até certo certo ponto. Após alcançar a notoriedade desejada, no filme, Mary Ann começa a ficar paranoica sobre as esposas dos outros advogados e a vida naquele local, mas Kevin, agora um famoso advogado e muito solicitado, não tem mais tempo para lidar com as dúvidas de sua mulher. Assim, ela acaba por tirar a própria vida e ele se descobre filho de Satan, que deseja que ele e sua meia-irmã se juntem para produzir o anticristo.

É curioso como o suicídio de sua mulher é o que o ajuda a descobrir sua filiação, já que tirar a própria vida é uma perversão muito ligada ao inferno e indiretamente ele levou alguém que amava a fazer isso. Porém, não é o que acontece no livro. Nessa história Mary Ann não se mata, mas acaba ela mesma por engravidar do anticristo, e diretamente de John Milton. O que acontece após isso é que Kevin faz a escolha correta e tem uma segunda chance de voltar ao começo, desistindo do caso e deixando seu primeiro cliente sozinho, enquanto no livro ele é visitado por Mary Ann no hospício em uma realidade diferente da original.

Kevin Lomax é um homem relativamente bom, mas facilmente seduzido por conceitos que vão contra sua criação cristã. Ele prioriza o conforto de sua esposa e acaba por perdê-la e a si mesmo nessa busca. Tanto o filme quanto o livro, trazem uma profunda reflexão sobre o que é realmente importante e o quão longe podemos ir para obter comodidade e luxo. Um ótimo aviso para prezarmos cada vez mais pelo aprimoramento pessoal e pelo que realmente importa em nossas vidas.